
Olhámos fixamente um para o outro, esquecemos de tudo o resto por momentos, começámo-nos a aproximar à medida que as lágrimas caiam pelos nossos rostos, a cada passo que dava o meu coração palpitava, e a cada olhar que trocávamos a minha alma renovava-se. Estávamos ali, um diante o outro, naquela manhã quente de agosto, como no primeiro dia em que nos beijámos. Demos as mãos e ficámos a olhar um para o outro, nesse momento a minha alma tinha voltado a estar comigo. O tempo foi passando e nós ali, alheios a tudo e a todos, por fim beijámo-nos, um beijo tão puro como o primeiro.
A paz que sentia naquele momento terminou, repentinamente, quando nos meus ouvidos soou um som de um tiro, voltei a realidade, mas agora esta estava radicalmente diferente. Os seus lábios estavam gelados e as nossas bocas foram-se separando lentamente até não sentir mais o seu corpo no meu, e novamente Erik caiu no chão, violentamente, como na última vez que estivemos juntos, mas desta vez era irreversivel.
Ali estava, estendido no chão, a escorrer sangue com a minha mão junto ao seu coração, as lágrimas que anteriormente eram de alegria agora tinham sido camufladas em lágrimas de dor. Novamente fui levada para bem longe dele, agarraram-me como quem leva um animal após ser sacrificado, era assim que me sentia, após tanta dor que vivi neste campo de concentração, esta tinha sido a minha última facada. Olhei para trás vezes sem conta mas a luz no sol reflectia-se no corpo de Erik, e eu era impossibilitada de o ver, apenas sentia o nosso amor, recordando-o: lembraças de um passado perfeito.
(Passagem retirada de um livro que escrivi: "Estratos do Diário de Judy", que tem como tema o holocausto. A história conta a vida de uma rapariga que sobriviveu aos campos de concentração, mas que perdeu todas as pessoas que amava, incluindo o namorado Erik que era alemão, que se passou por judeu para estar ao lado de Judy)